Alaranjadear.

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Hipocrisia terapêutica

Estava quente. Bem abafado mesmo. Nem uma folha dava sinal de vida. O cão estirado no quintal parecia querer banho. O inverno zombava mais uma vez dos casacos no armário. E, acima de tudo, era o seu terceiro dia de férias. A plena liberdade. O indulto de Natal antecipado. A satisfação tão contagiante que chegava a lhe criar um ar nostálgico.

A falta de programação, misturada a melancolia dos últimos tempos, pós um pé na nádega mal absorvido, se derretia em meio à soma de vertigens que lhe atormentavam. Precisava de vida. Necessitava respirar fora da robótica destruição enraizada na inércia existencial.

Lembrou-se dos devaneios de Kafka e alegrou-se com o viajar sem sair do lugar. Era muito mais adequado para a falta de programação. Abriu a internet, olhou as dicas de entretenimento e deparou-se com uma Noite Caribenha. Não poderia ir dançar salsa em Cuba, mas, os ritmos caribenhos estavam próximos. Por que não experimentá-los, pensou? Não sabia dançar, mas, ao menos, poderia observar a alegria do salão e deixar-se levar pelas infinitas possibilidades que não aconteceriam se somente ficasse na imaginação.

Encheu-se de coragem. Ligou para alguns amigos e simplesmente rumou. Ao adentrar, encantou-se logo de cara. Muitos sorrisos bailavam em meio ao vermelho Almodóvar que tingia a atmosfera com um rebolado ainda mais sensual. O grande Woody Allen, sem dúvida, não teria dificuldade para encontrar ali sua próxima estrela.

Os tímidos passos iniciais ameaçavam alguma coreografia mais ousada, principalmente, conforme as poções de fantasia faziam efeito. Porém, os dois passitos para frente e dois para trás, reinavam no subconsciente amedrontado. Logo, os amigos estavam bailando e o espectador misturava mais uma dose com aquela frustração paralisante.

Subitamente, a banda parou. Um murmurinho tomou conta de olhares aflitos. Os músicos pareciam discutir. Algum problema com os acordes. Notas desafinadas. Se bem que um cara, que já havia consumido várias tequilas, soltou que tudo era por causa da mulher do guitarrista que estava, digamos, salsareando demais. O fato é que o impasse ameaçou colocar a noite em cheque.

Quando muita gente já se preparava para recolher a animação, surge um senhor, com um bigode vistoso, camisa florida, e se convoca para assumir a posição. Disse estar um pouco fora de forma, mas, acreditava poder improvisar alguns acordes.

Teve gente no estacionamento que retornou e abriu novamente a conta. As dificuldades iniciais logo foram se amenizando e aquela jam session pareceu animar, ainda mais, os músicos e todos no ambiente. Nesse momento, em meio a toda empolgação, a câmera focalizou um olhar iluminado no outro lado do salão.

Um amigo logo percebeu e pressionou. O que está esperando para ir dançar com ela? Vamos lá, reforçou o outro. É preciso ação, atitude, coragem, urgência. Mais uma vez, encontrava-me pressionado pela correria da sociedade moderna que nos cobra resultados imediatos. Além de tudo, havia a questão do Homem, o caçador, que precisa ser incisivo, caso contrário, corre-se o risco de ter a masculinidade discutida na rodinha do lado.

O quadro caminhava para vexatório WO, quando um daqueles pensamentos salvadores pediu espaço, assumiu o controle e disse, vá até lá e deixe comigo. Sem mais cerimônia, aproximou-se da donzela mencionada e soltou o tradicional: olá, vamos dançar? Ela deu aquele leve sorriso encabulado e respondeu que não sabia. Foi a deixa perfeita, o caco infalível para a fala seguinte. Não precisamos saber dançar, o segredo é fazer cara de que sabemos. O tímido sorriso virou uma gargalhada com sabor de quero mais.

A. M.


Eu ainda não consegui escrever nada que possa dizer o quão especial pra mim foi receber este e-mail, mas como só vem pra cá coisas mesmo do fundo do meu coração, espero que receba com carinho o meu muitissíssímo obrigada. Um dia gostaria de poder retribuir à altura. E sim, fui convencida: talento com as palavras escritas.

Outro beijo de guardanapo...
Salseira.
mafe: 11/01/2009 4:14 AM
muito feliz que eu li isso! amor, vc é assim special!
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